
Morador do Jardim Ângela desde 1979, Antônio Lellis ainda se lembra da primeira noite que passou ali. Depois de dar aula numa escola da região, ele desceu do ônibus na Estrada do M’boi Mirim, que ainda não tinha luz elétrica, e se viu embaixo no meio de uma paisagem rural, embaixo "do céu mais estrelado da cidade". “Eu senti um cheiro de mato e achei tão gostoso!”, conta. O professor acabara de se mudar de Moema para lá, buscando atuar nos movimentos sociais que floresciam na zona sul desde o início da década. Vinte anos depois, questionado se prefere Moema ou o Jardim Ângela - distritos de São Paulo que, segundo a Fundação Seade, possuem respectivamente a mais baixa e a mais alta taxa de homicídios por 100 mil habitantes - Lellis não hesita em dizer que prefere morar no Jardim Ângela. “Nunca pensei que isso fosse acontecer, ter a oportunidade de conviver num lugar onde os movimentos estavam bem organizados, onde havia bastante verde, onde eu aprendi com as famílias dos alunos e com a comunidade”, conta.
Aposentado há oito anos, ele continua morando na mesma casa, mas agora se vê rodeado por prédios, estabelecimentos comerciais, igrejas e muitas escolas. “Para tudo quanto é lado você pode ver a caixa d’água de alguma escola”. A duplicação da Estrada do M’Boi Mirim, prometida para 1983, só aconteceu em 1989. Hoje, parece ser insuficiente para o número de veículos que trafegam pelos seus 10 km de extensão. Em algumas horas do dia e sobretudo nos finais de semana, é comum haver pontos de engarrafamento ao longo da estrada, que ainda é o principal eixo de locomoção entre Santo Amaro e Embu-Guaçu. De acordo com o IBGE, os habitantes do distrito do Jardim Ângela são mais de 220 mil, distribuídos nos cerca de 50 bairros - todos povoados às margens da Estrada. A maioria destes habitantes chegou na região na mesma década em que Lellis abandonou Moema mas, ao contrário do professor, vinha de lugares mais remotos e carentes.
A luta pela inclusão
Situado em torno da bacia do Guarapiranga, o Jardim Ângela passou a ser ocupado principalmente nos anos 70, quando, seduzidos pelo ideário do “milagre brasileiro”, milhares de migrantes se mudavam do Nordeste ou de Minas Gerais para a cidade de São Paulo. Naquela época, a mancha urbana da metrópole já se expandira para regiões distantes do centro, próximas de represas e áreas rurais. Segundo o sociólogo Pedro Jacobi, esta já era a “segunda fase da periferização”. De acordo com ele, a primeira fase teria acontecido entre os anos 40 e meados da década de 50, nas áreas próximas a estradas secundárias e nas ligações viárias entre subúrbios e distritos isolados. Já a partir dos anos 60, este processo passou a acontecer em áreas pouco favoráveis para a urbanização, com as seguintes características: qualidade de solo inadequada, topografia irregular e excesso de loteamentos irregulares ou clandestinos.
Por isso, quem chegou ao Jardim Ângela no final dos anos 60 conta que não havia asfalto, luz, água encanada e muito menos linhas de ônibus. Plano de urbanização? Nem pensar. A maioria das casas ou barracos eram levantados em terrenos irregulares, muitas vezes sobre lençóis freáticos - até hoje, a maioria das habitações do Jardim Ângela está em uma área de proteção a mananciais. A luz era obtida por meio dos “gatos”, as ligações clandestinas que ainda compõem a paisagem da região.
Durante a primeira metade da década de 70, o Jardim Ângela, assim como outras regiões periféricas de centros urbanos do país, recebeu pesados investimentos em infra-estrutura. Segundo a antropóloga Teresa Caldeira, neste período o Brasil se tornou o maior tomador de empréstimo do Banco Mundial para desenvolvimento urbano. Asfaltamento, coleta de lixo, linhas de ônibus, escolas públicas e iluminação foram alguns dos serviços implantados - a maioria deles depois de uma grande pressão popular.
Além de viver um intenso processo de ocupação, o Jardim Ângela era, na época, um dos principais focos de movimentos sociais no país. De um lado estavam os homens, metalúrgicos, empregados sindicalizados das indústrias de Santo Amaro (Silvania, Villares, Cibié). De outro, suas mulheres, donas-de-casa, diaristas, que se reuniam em Clubes de Mães para reivindicar melhorias no serviço público e nas condições de vida. A maioria destes movimentos era coordenada pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que, segundo Maria da Glória Gohn, tinham como objetivos ser evangelizadoras e conscientizadoras - e, por isso, tornaram-se espaços de participação popular. Em sua dissertação de mestrado, intitulada “Classes populares, periferia urbana e movimento social urbano: o movimento das sociedades amigos de bairro em São Paulo”, ela relata que, em 1972, a Curia Metropoliana de São Paulo lançou a “Operação Periferia” para dinamizar o processo de formação de CEBs. Em 1977, havia cerca de 20 destas comunidades espalhadas pelas paróquias da zona sul de São Paulo.
No Jardim Ângela, a paróquia mais atuante e abrangente era a da Vila Remo - para a qual Antônio Lellis dedicou mais de uma década de serviços. Era ali que estavam representados os clubes de mães, a pastoral operária, os cursos de alfabetização de adultos e várias CEBs - do Parque Santo Antônio ao Jardim Jacira. Em Vila Remo, que nos anos 70 era coordenada pelo padre Luiz Giuliani, discutia-se as prioridades para a região sul e como reivindicá-las, não importando se quem receberia os benefícios seriam os moradores do Santa Margarida, do Jardim Nakamura ou do Jardim Kagohara. “Onde tinha precisão, a gente ía lutar”, lembra Pedrina Alves da Silva, que participava da paróquia.
Silvio Caccia Bava, em sua dissertação “Práticas cotidianas e movimentos sociais: elementos para a reconstituição de um objeto de estudo”, organiza cronologicamente as conquistas de Vila Remo durante a ditadura militar: coleta de lixo e luz em 1973, construção de escolas em 1974 e ampliação de linhas de ônibus em 1975.
No final da década, segundo Pedro Jacobi, a comunidade lutou pelo saneamento básico. Naquela época, ele destaca que o coeficiente de mortalidade infantil na zona sul chegava a 158 por mil crianças - um índice bastante elevado para os padrões da cidade e sem dúvida agravado pela falta de saneamento.
Em 1975, inúmeras Sociedades Amigos de Bairro da zona sul se reuniram para pedir às viações Jurema e Monte Alegre que aumentassem as linhas e os trajetos de ônibus na região. Um boletim destas entidades revela os dados de uma pesquisa conduzida por elas: de cada 100 moradores do Jardim Ângela e Riviera, 60 trabalhavam em Santo Amaro e no Brooklyn. Das 5h30 às 7h30 da manhã, os ônibus que saíam do Jardim Ângela com destino a estes bairros carregavam em média 130 passageiros. Naquele ano, 10.000 moradores da região assinaram uma carta à prefeitura de São Paulo, solicitando a criação de uma linha de ônibus que passaria pelos bairros de Jardim Jacira, Alto do Riviera e Parque Santo Antônio. Após muita mobilização da população, a demanda foi atendida.
Depois da democratização
A antropóloga francesa Jeanne Bisilliat acompanhou os trabalhos da Vila Remo na década de 80 - quando, segundo ela, as reivindicações da comunidade se concentraram na questão da moradia. No artigo “Comment être pauvre et citoyen” ela ressalta que o atendimento às demandas da periferia dependia muito do perfil do governo municipal. Como na década de 80 os prefeitos de São Paulo eram ligados a partidos de direita, estavam menos interessados em realizar políticas sociais para a periferia. Esse perfil de governo também desestimulava as organizações populares a continuar lutando, o que, segundo Bisilliat, explicaria o fato de Vila Remo ser a única comunidade combatente na década de 80.
Bisilliat acompanhou o movimento por moradia de Vila Remo de 1986 a 1990. Segundo ela, o grupo reivindicava o direito de usar a terra por 99 anos, investimentos em infra-estrutura urbana e, principalmente, o direito de construir em sistema de mutirão, o que baratearia o custo da casas. A maioria dos integrantes do movimento era composta por migrantes, com baixa ou nenhuma escolaridade. 30% das mulheres eram chefes de família e sustentavam a casa trabalhando como domésticas ou diaristas. Depois de dois anos de luta e outros dois de construção, as mulheres ouvidas por Bisilliat se diziam mais confiantes por terem se adaptado a novos papéis (muitas realizavam as mesmas tarefas pesadas que os homens na construção), além de terem a sensação de ter ascendido socialmente.
Apesar de todas estas lutas e algumas conquistas, ainda hoje a carência por serviços públicos no Jardim Ângela é gritante. Somente 55% das moradias possuem água encanada. Não há hospital público. Em alguns bairros, o asfalto não chegou. Em 1997, um levantamento feito pelo Fórum em Defesa da Vida, que reúne mais de 200 entidades que atuam na região, mostrou a carência por 73 creches, sete postos de saúde, além de campos de futebol e quadras poliesportivas.
Em junho de 2002, o Fórum em Defesa da Vida, que se reúne mensalmente na Paróquia Santos Mártires, realizou o Primeiro Tribunal Popular do Jardim Ângela. A idéia era confrontar as demandas da comunidade com as propostas do poder público e dali tirar uma pauta de reivindicações para os governantes. Dada a extensão da lista de carências, o Fórum se limitou a tratar de serviços de segurança pública, exigindo a construção de mais sete bases de polícia comunitária. Desde a realização do Tribunal, o Fórum vem tentando, sem sucesso, marcar uma reunião com a Secretaria de Segurança Pública para discutir prazos de implementação destas bases, que ajudariam a resolver um dos problemas sociais enfrentados pelos moradores da região: o alto índice de homicídios.
No outro extremo da M’Boi Mirim
Enquanto Antônio Lellis se recorda com saudade do tempo em que havia matagais ao redor de sua casa, na outra extremidade da Estrada do M’Boi Mirim, José Francisco da Silva ainda convive com cabras, ruas de terra e galos cantando ao amanhecer. Seu Zé Francisco, como é conhecido pelos vizinhos, mora com os seus quatro filhos na Vila Calu, que faz fronteira com o município de Itapecirica da Serra. O processo de ocupação do bairro é mais recente e, por isso, não há grandes estabelecimentos comerciais, escola pública nem asfalto. A luz elétrica chega até muitas casas por meio dos “gatos”.
Desde que chegou em São Paulo, em 1969, o pedreiro seu Zé já teve várias moradias: de dormitórios para operários nos canteiros de obras até diversas casas no Jardim Ângela, passando por Santo Amaro. Aos 52 anos, ele contabiliza mais de 400 casas levantadas só no distrito. Em maio de 2002, estava construindo a sua sexta casa, em uma rua do Jardim Silvano, em Itapecirica da Serra. Assim como muitos outros moradores da periferia, seu Zé está construindo sua casa com a participação de familiares e vizinhos - principalmente quando é hora de bater a laje. Neste dia, seu Zé conta que organizou um churrasco para todo mundo.
Enquanto caminhávamos pelas ruas do Jardim Silvano e da Vila Calu (bairros vizinhos), seu Zé apontava outras casas com laje recém-batida, sinal da rápida ocupação do bairro. Questionado sobre o que achava dali, respondeu que estava gostando, por causa da proximidade com seu emprego (em uma fábrica de Embu-Guaçu) e das casas de amigos e parentes. Segundo ele, o maior problema é o descaso do poder público com os moradores. Toda a região da Vila Calu, Jardim Silvano e Vila Guiomar está na fronteira do município de São Paulo com Itapecirica da Serra, o que faz com que uma prefeitura empurre para a outra a responsabilidade pela área. “Na hora de ouvir nossas reclamações, nenhuma das duas prefeituras quer. Mas na hora de cobrar impostos, os dois municípios disputam a propriedade da área”, critica seu Zé.
Ele conta que deixou o interior da Bahia para tentar uma vida melhor em São Paulo, onde passou muitos anos vivendo em alojamentos de operários da construção civil. Quando decidiu adquirir a sua casa, optou pelo Jardim Ângela. “Como a gente é pobre e não tem como habitar em lugar mais confortável, nós vamos para a periferia. É onde a gente arruma um pouco de dinheiro e dá uma entrada num terreno que a gente vai pagando aos poucos”, resume.

Morador do Jardim Ângela desde 1993, Isaías Valença da Silva afirma, com bom humor, que vive em quatro bairros. Isso porque cada correspondência que chega em sua casa traz um nome diferente de bairro, o guia de São Paulo dá ainda outro nome e os vizinhos escolhem outra nomeação. Dentre todas as possibilidades (Parque Independência, Conjunto Residencial Aripoana, Vila Santo Amaro e Jardim Paranapanema), ele diz que prefere a última.
Antes de se mudar para lá com sua família, Isaías morava de aluguel, no Jardim Rosana, um bairro do distrito do Capão Redondo. Conta que seus pais, que migraram da Paraíba, sempre lutaram para ter um terreno próprio e, quando ficaram sabendo da abertura de um loteamento no Jardim Ângela, foram para lá. A casa foi construída com a ajuda de toda a família. “Eu era criança, mas carregava um tijolo, levava uma lata”, conta Isaías. Segundo ele, o terreno ainda pertence à prefeitura, mas seu pai espera em breve obter a propriedade. Isaías acrescenta que seu pai, no fundo, não quer ficar no Jardim Paranapanema. “Ele quer voltar para a Paraíba de qualquer jeito, mas eu quero ficar aqui”, conta.
Ao contrário de Antônio Lellis, Isaías gosta de ver o Jardim Ângela cada vez mais urbanizado. “Está vendo esta farmácia, este supermercado?”, pergunta, enquanto andamos por algumas ruas paralelas à Estrada do M’Boi Mirim. “É tudo novo. Sinal de que o bairro está crescendo e melhorando”, afirma. “Eu sei que temos alguns problemas que precisam ser resolvidos, mas mesmo assim eu digo com orgulho que moro aqui no Jardim Ângela”, conclui.
Jucileide Rodrigues da Silva, diretora da Escola Municipal Oliveira Viana, usa metáforas para explicar como a cidade de São Paulo vê os moradores da periferia. “Do lado de lá da ponte, onde estão as oportunidades e boas condições de vida, ficam as pessoas com pedigree. Aqui, tanto as pessoas do centro quanto muitos moradores acreditam que só tem gente SRD”, conta, referindo-se ao termo “sem raça definida”. ”Há uma grande inversão de valores e a periferia carrega um estigma que precisa ser quebrado”, defende.
Fotos: Renato Stockler (Seu Zé Francisco) e Adriana Silveira (Isaías)