eu ando com vontade de fazer pão, até tinha escolhido uma receita e comprado alecrim fresco, mas resolvi esperar até a aula de pães que eu faria esta semana - não sei se porque eu estava esperando alguma dica secreta, ou se imaginava que a gente levaria pra casa pelo menos um naco de pão, e nosso café da manhã estaria garantido por uns dias.
então eu estava esperando, e criando um montão de expectativas e novelinhas mentais da aula. imaginei a professora ensinando truques para garantir uma boa sova, imaginei os alunos todos enfarinhados, imaginei a gente fazendo fila pra pesar a farinha e picando as nozes, uma cozinha quente e vibrante...
mas como sempre acontece, imaginei e esperei demais, e saí da aula um pouco decepcionada. a cozinha pedagógica é ótima, a professora também, e as receitas que aprendemos rendem pães e focaccias deliciosos. mas faltou sujeira, bagunça, emoção, calor, e pessoas enfarinhadas. e o tal truque da sova, também não rolou. (até fiz um charme pra professora, disse que eu não sabia sovar, e ela só respondeu que estava bom daquele jeito).
e fazia tempo que eu não via tanta gente engomada, escovada e esticada junto. um povo obcecado por medidas, por receitas exatas, por controlar todo o processo. e eu, que tantas vezes ouvi da minha mãe e da minha vó que saber uma medida, ou o ponto certo de tal coisa, era questão de olhômetro, fiquei contente quando a professora disse: só com a prática a gente descobre o jeito e o ponto certos, e o "ojometro" é o nosso melhor amigo.
mas se eu me assustei com aquele grupo, me pareceu o perfil de alunos que a escola espera receber. tanto é que é tudo muito asséptico, tudo já vem medido, separado, embalado, e os alunos só precisaram misturar os ingredientes e sovar um pouquinho. se precisassem de alguma coisa (um pouco de azeite, um copo de água ou uma xícara de chá inglês), era só chamar uma das ajudantes (havia três). elas estavam ali pra fazer todo o "serviço sujo": limpar a bancada, servir a sopa que acompanhou a degustação dos pães, lavar o prato onde as pessoas tomaram a sopa, colocar água pra ferver, jogar os guardanapos usados no lixo...como se fossem as empregadas das casas dos alunos. como se a gente (ou eu, não sei os outros) não estivesse ali pra aprender a fazer tudo do começo ao fim, pra se sujar, lambuzar, queimar o dedo no forno e sair da aula com a sensação de ter feito um trabalho que valeu a pena.

bom, mas antes que pensem que eu detestei a aula (eu só fiquei decepcionada e incomodada com algumas coisas), ela teve pontos positivos, e um deles foi poder levar pra casa a receita que a gente preparou, de pão com sementes. como a aula era curta, não assamos o pão na escola; cada um levou a massa fermentando e assou no seu próprio forno. mesmo no meu, que anda desregulado, o pão ficou bonito, cheiroso e gostoso. mas fiquei com uma sensação estranha: eu não tinha comprado aquele pão, mas também não sentia que ela era "meu", minha criação. era um pão sem dono.

de toda forma, comemos sem culpa o tal pão sem dono, e hoje eu tive que fazer muffins pra garantir o café da manhã. muffins de limão siciliano e amora, uma delícia. mas essa história fica pra outro post, porque este está longo, e eu, faminta.