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uma chance

Eu não sei quantos anos ele tem. Sei o seu nome, onde mora, e que está desempregado. Sei que desenha bem e tem uma mãe. Até alguns dias atrás, não sabia nada disso - a não ser, talvez, que ele desenha bem. Mas acontece que abrimos uma concorrência, em busca de ilustradores pra uma cartilha. E decidimos convidá-lo. E parece que ele ficou tão feliz que varou noites fazendo os desenhos. Pra terminar a ilustração em preto e branco, ele contou com a ajuda do F, um amigo da quebrada que também desenha e pintou todas as partes pretas. No desenho colorido, ele disse que estava tão nervoso que a mão começou a suar, e borrou um pouco o contorno do boné de um dos personagens. Mas ele deu um jeito e nem conseguimos perceber. O desenho tinha todas as cores de uma caixa de 36 lápis da Faber Castell (será que ainda tem dois andares, como na minha época de escola?). Ele desenhou em cartolina, e fiquei me perguntando se ele comprou em alguma papelaria da Estrada do M´Boi Mirim. Os desenhos vieram enrolados em um canudo bem grosso, que ele ganhou dos arquitetos que vão reformar a praça do lado da casa dele. Também levou para a reunião duas pastas com desenhos e seus instrumentos de trabalho: uma caneta ponta fina e um tupperware onde guarda os lápis de cor, todos bem gastos. Entre a casa dele e a firma, foram mais de duas horas de viagem. Desceu no Largo da Batata e subiu a pé até a Vila Madalena. Disse que estava muito nervoso porque achou que todos os participantes da concorrência estariam na mesma reunião. Contou também que não fez nenhum curso de desenho, não tem computador e nunca digitalizou nada do que faz. Quando escaneamos uma parte de um dos desenhos, deve ter sentido um orgulho danado de ver o trabalho dele na tela, e umas 10 pessoas em volta, elogiando. Dissemos que se ele for aprovado, vai poder acompanhar todo o processo de digitalização e tratamento das ilustrações. Ele abriu um sorriso e perguntou: pode mesmo? Pode, claro. E também dissemos que se ele não for aprovado, vai poder ir um dia à firma ver como se digitaliza e trabalha uma imagem no computador. E de novo ele perguntou: Pode mesmo? E a gente: pode, claro.
Fico imaginando o que deve ser, pros milhares de jovens que estão na mesma situação que ele, ouvir que não pode - e são vários não pode, todos os dias. Por isso é tão bom quando a gente pode dizer que pode. Faz o dia valer a pena, apesar de tudo.

Comments (3)

Lindo... de fazer chorar.

Janete:

Tô com lagriminhas nos olhos. É mesmo lindo ouvir que pode.

Beijo grande
Manda outro pro davizinho...

vocês nem imaginam o quanto eu chorei por causa disso. (e sorri também, porque ele foi selecionado)

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