Não sei como começou. Só sei que eu estava fazendo favores a um grupo, uma trupe de teatro. E todos estavam felizes porque eu era prestativa e competente e mesmo não sendo uma atriz eu podia substituir qualquer um dos atores (acho que tinha mais de um que estava doente). E a primeira vez que eu subi no palco foi ótima, não errei nada e agradei ao público. A trupe bateu palmas pra mim, nas coxias. Senti que todos ali gostavam de mim.
No dia seguinte, eu estava indo até o teatro e me dei conta de que tinha esquecido tudo: Quem eu deveria substituir mesmo? Quais eram minhas falas? E por mais que eu tentasse, não conseguia lembrar de nada. Caminhava até o teatro carregando esse branco na cabeça e uma baita angústia. No caminho, eu tropeçava muito, encontrava pessoas estranhas e fazia um esforço pra ficar conversando com elas e usar isso como desculpa para não ter ido ao teatro. Mas de repente eu recomeçava a andar, e quando cheguei perto do teatro e encontrei alguém da trupe, a pessoa percebeu pela minha cara que algo não estava bem. E eu, que tinha esquecido até como se chegava no camarim, pedi ajuda. E a pessoa se recusou a me mostrar o caminho. Quer dizer, ela saiu meio que correndo e eu tive que correr atrás dela, e me perdi muito, e no caminho topava com outros atores da trupe que me olhavam desconfiados. E eu tropeçava o tempo todo. E calçava umas botas que não eram minhas.
E quando eu finalmente cheguei no camarim, as roupas do personagem, que alguém jogou pra mim, custavam a entrar. Tudo me sufocava, tinha um cachecol que me apertava o pescoço e eu precisava tirar as botas pra calçar o sapato da velha, mas elas pareciam grudadas nos meus pés. A trupe me olhava feio e eu fazia um esforço enorme pra mostrar pra eles que estava tudo bem. Eu queria que eles confiassem em mim. Eu queria que eles me amassem. Eu queria subir no placo e agradar a platéia, de novo. Mas eu sufocava cada vez mais... Fiquei sem ar e acordei.