À cidade. A primeira hora é a mais difícil: tudo mudou e é preciso se adaptar em questão de minutos, pra não ser atropelado, vaiado, buzinado. Todo mundo se empurra, os carros se jogam violentamente uns contra os outros, tentando garantir pra si o melhor pedaço da rua. As pessoas caminham com cara de tédio, o ar fede, machuca o nariz e os pulmões, os barulhos chegam a ofender e confundir todos os sentidos.
Acho que qualquer pessoa que mora em São Paulo e sai de férias tem que lidar com essas sensações quando volta- e uma vontade incontrolável de dar marcha a ré e retornar pra onde se estava.
No ano passado, eu desejei ardentemente voltar pra minha poltrona de avião e só sair quando estivesse em outro país. Era domingo à noite, o domingo que antecedeu a histórica segunda-feira dos ataques do PCC, e a cidade estava vazia e paralisada. Os poucos carros que estavam nas ruas eram viaturas de polícia. Todas paradas, em silêncio.
Ontem voltamos e passamos por todos os estranhamentos e, de novo, um susto envolvendo “segurança”. Era umas onze e meia da noite, a gente estava em casa, assistindo um DVD, quando comecei a ouvir sirenes de polícia. Muitas sirenes. Carros correndo, freando bruscamente. Nos primeiros minutos, nem me mexi, pois isso é rotina na Nove de Julho. Mas passavam mais carros, havia cada vez mais sirenes e freadas. Pensei em batida, assalto, perseguição, seqüestro. Do terraço, dava pra ver umas quatro viaturas estacionadas na Álvaro de Carvalho, a rua dos fundos de casa. Na Nove de Julho, tudo parecia tranqüilo. Mas na Álvaro, os carros que subiam eram aconselhados a dar meia volta. Os vizinhos estavam observando tudo dos terraços, esperando alguma coisa mais grave acontecer. A Zazá e a Nina subiram no parapeito do terraço, mas fiz de tudo pra tirá-las dali, pensando que poderiam ser vítimas de uma bala perdida.Lá em baixo, nada de bandido. Só tinha os PMs, os carros e uma luz forte, dessas que eles usam em blitz. Nada acontecia. Nenhum tiro, nenhum fugitivo pra movimentar a cena. Terminamos de ver o filme, voltamos pro terraço. A cena era a mesma: viaturas paradas, silêncio. Comecei a desfazer as malas, pensando que aquilo não era nada. Mas a cada cinco minutos, voltava pro terraço pra ver se alguma coisa tinha mudado. O David estava no banho e eu ia contando pra ele o que eu via (“ chegou mais uma viatura, um carro da CET também parou, tem mais gente no terraço do primeiro andar”). De repente, um morador de rua passa e diz algo que o policial não gosta. Ele abre a porta de uma das viaturas e tenta jogar o senhor no carro, mas ele se recusa. Fica imóvel, o policial também, acho que segurando uma arma. Uma mulher chega, abraça o senhor, eles conversam com o policial e vão embora. E tudo volta a estar como antes: várias viaturas paradas e nenhum movimento suspeito.
Comecei a procurar nos arredores e achei: flashes vindo de uma árvore. Segundos depois, uma luz vermelha vindo de um prédio abandonado. E em uma das janelas desse mesmo prédio, duas velas acesas. E silêncio. E os policiais ali parados. E mais viaturas chegando, e parando ao lado das outras. E de repente: gritos de uma multidão que estava não sei aonde: “o povo, unido, jamais será vencido”. Mais gritos, e mais, como se fossem de uma torcida comemorando algum gol. Sem sair do terraço, gritei pro banheiro: “alguma coisa está acontecendo naquele prédio abandonado”. Uma invasão. Na Álvaro, os policiais continuavam imóveis, mas no prédio era possível perceber a movimentação de algumas pessoas. Uma dupla vestida de branco passa por uma janela. Alguns andares mais pra cima, flashes. E lá no teto, vão aparecendo uma, duas, três, quase dez pessoas, que correm, pulam e gritam “ o povo unido jamais será vencido” Gritam também o nome do movimento EME ESSE TE CE! Um deles grita que quer a Rede Globo ali. Outros conversam com a platéia -vizinhos de prédios da Nove de Julho, que aplaudem e acendem luzes. Em sinal de apoio apagamos a luz do terraço e acendemos um isqueiro. Não sei se algum deles viu. Depois, um outro homem grita que quer a Record. Depois todos entram no prédio. Algumas luzes aparecem nas janelas, e os gritos continuam. Ouvimos batidas fortes, como se estivessem marchando ou batendo em placas de madeira. Na Nove de Julho, algumas viaturas passaram e devem ter parado em frente ao prédio. As pessoas continuavam gritando. Os policiais da Álvaro continuavam imóveis. O David estava eufórico “ é uma revolução”. Mas era mais de uma da manhã e a gente precisava dormir. Chá de camomila não foi suficiente pra acalmar os ânimos: passamos a noite toda meio acordados, mas não houve nenhum acontecimento digno de nota. Os gritos em algum momento cessaram, as viaturas foram embora....Hoje a rua estava normal e o prédio, vazio. Segundo a Folha Online , aconteceram várias invasões simultaneamente em diversos pontos da cidade, promovidas pelo MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro) e pela FLM (Frente de Luta por Moradia) . No prédio do INSS que fica na Nove de Julho, a polícia conseguiu negociar com os invasores e estes, infelizmente, deixaram o prédio.
Quem estava feliz da vida com essa derrota era um taxista que faz ponto aqui na Álvaro, bem na porta da nossa garagem. Hoje de manhã, ele ria e falava pros colegas: “ sem terra, sem teto, sem vergonha, sem moral, sem vontade de trabalhar, é tudo vagabundo”. Esta cidade é mesmo um lugar triste.