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naquele lugar

os desejos não são ditos: eles aparecem escritos, são passados de mão em mão e nunca lidos em voz alta. sente-se os pés dos caminhantes pisando na estrada de terra, nas plantações de milho ou samambaia ou deslizando pelo asfalto molhado. ninguém tem fome, os beijos não são proibidos, há água em abundância, dos vestiários sai sempre um vapor de banho quente. na sala de espera do que parece ser um consultório, está o busto de uma mulher sem braço, com lábios carnudos, que fala muito, chora pouco e olha tensa para o sangue ao seu redor, para as ataduras de gaze, os esparadrapos e as comadres que se acumulam no chão, esperando uma enfermeira que possa limpar aquele lugar, que lhe traga de volta os braços e pernas, que faça estancar todo aquele sangue. a mulher mutilada olha às vezes para a rua, uma avenida de Recife por onde ônibus circulam freneticamente, ela gostaria de embarcar em algum deles, não importa o trajeto, ela gostaria de poder estender o braço para o ônibus parar, mostrar a palma da mão aberta e cheia de moedas para o cobrador, gostaria de ser inteira.

ela desvia o olhar para o boteco ao lado, as paredes verde água e os pedaços de carne espalhados em cima da mesa de sinuca, o balcão sendo lavado. ali, alguém ligou um rádio de pilha, ela não identifica a música, os sons são pouco familiares. naquele lugar de onde se vai até uma praça de Berlim e pega-se um avião para a China, de onde saem ônibus que passeiam por Porto Alegre e Strasbourg, onde os cachorros são mansos e há fontes em quase todas as esquinas, a mulher mutilada luta para não esquecer.

Comments (1)

tutu:

UAU! QUE TEXTO MARAVILHOSO!
Beijos saudosos.

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