nas minhas viagens de ônibus eu penso em coisas assim: livros que eu quero ler, meios de conseguir muito dinheiro (no momento as opções são bingo ou sorteio de shopping), a parte que falta do meu projeto de monografia (arrumar a bibliografia, editar a justificativa e terminar a análise qualitativa) e, sempre, como cicatrizar as aftas e evitar que elas apareçam de novo. hoje desci do ônibus decidida a entrar na primeira farmácia que aparecesse e pedir o melhor remédio contra aftas. depois pensei em comprar cotonetes e bicarbonato e deixar na minha gaveta da firma e na minha bolsa. depois fiquei tentando lembrar os nomes de todas as pomadas e remédios que já usei e que não funcionaram, e naqueles que funcionaram mais ou menos. depois esqueci de tudo isso e fiquei pensando se deveria comprar a bolsa amerela com bordado de árvore ou a bolsa que tem formato de casa (sim, com um telhado vermelho e um gato preto bordado), ou nenhuma das duas, afinal, com os mais de 130 reais que elas custam eu poderia comprar muito mais do que um item (por exemplo, mais um jogo de pratos na etna, vários cds da putumayo, talheres e copos pra casa nova...). daí pensei que se eu tivesse tempo eu poderia fazer uma bolsa como essas, ou até mais bacana. daí lembrei que não tenho tempo nem pra fazer bolsa, nem pra escrever a carta-queixa contra a soldado suzi, nem pra dormir oito horas por noite, nem pra ver meus amigos... daí já era hora de descer do segundo ônibus e vir caminhando pra firma- aonde, diferentemente dos ônibus, eu só penso em coisas sérias.
para o novo ano que se aproxima (bah!):
- menos aftas (ou nenhuma)
- que minha bolsa não seja roubada
- que não batam no meu carro
- mais horas de sono por dia
é impressionante como a versão que a simone fez pra música do closer gruda na memória da gente.
ando com os ouvidos muito sensíveis e atentos. agora que pego 2 ônibus pra vir ao trabalho e mais 2 pra voltar pra casa, tenho ficado bem antenada nas conversas alheias e escutado tanta coisa interessante! hoje aprendi sobre a rotina de trabalho de uma promotora de vendas de banheiras na grande são paulo, ontem descobri quanto um motorista de ônibus ganha e que há ratos nas árvores do lado do ponto do cemitério da lapa.
é isso. se alguém quiser saber porque estou de ônibus, me mande um email. não vou ficar relatando neste espaço todas as desgraças que se abateram sobre minha vida, senão corro o risco de perder meus 3 ou 4 leitores.
e falando em picaretagem, me lembrei de um dos meus primeiros trabalhos de faculdade (de direito, ainda na puc), em que eu escrevi que as pessoas exerciam um olhar de sociólogo cada vez que assistiam uma propaganda de margarina e não se deixavam seduzir. ganhei nota 10 e muitos elogios, mas até hoje acho que foi pura picaretagem da minha parte- como sempre. (o segredo das minhas boas notas era fazer extatamente o que os professores queriam, não importando se eu acreditava naquilo ou não, e fazendo de um jeito que eles acreditassem que eu estava desenvolvendo um pensamento crítico e autônomo. hoje, acho que essa minha estratégia aleijou meu desenvolvimento intelectual )
mas pensei nisso agora porque hoje vi uma cena de propaganda de margarina: levantei, abri a porta do quarto e vi meu pai sentado na cama dele abrindo os presentes de aniversário, com um sorriso no canto da boca. achei tão bonito, tive vontade de descer as escadas cantando oh happy day, beijar a fatima, sentar na cozinha e tomar um breakfast daqueles de novela (ou de propaganda de margarina).
(mas chovia e saí correndo pra pegar o ônibus e vir comer o pão de queijo da lanchonete vizinha à firma. aliás, um pão de queijo com gostinho de margarina...)