tem enxurrada de sonhos. acho que é por isso que acordo sempre tão amassada, afinal é deveras exaustivo passar por situações tão díspares e intensas numa noite só. ontem, por exemplo, sonhei que conhecia ruas perigosas, que era ameaçada de morte e mudava de casa e jogava baralho e tomava um tiro na cabeça e derretia, que passava por vários túneis até chegar à casa da cartomante, que andava de trem e chegava num prédio velho aonde Moço Querido tinha morado e eu me mudava pra lá, que organizava uma festa pra comemorar os armários da casa, que eu trocava de meias e cuidava de samambaias...ah, no meio disso tudo eu ganhei um brigadeiro com frutas cristalizadas, pra fazer a massa render mais, e ainda consegui pensar: que doce "suburbano", minha nossa.
(em tempo: eu reprovo o hábito de taxar as coisas de "suburbanas")
de dia e de noite, de noite e de dia. de noite: todas as viagens, de barco, ainda mais agora que durmo numa fronha decorada com a Arca de Noé. de dia: projetos novos e tão possíveis. vi o menino indiano passear de patins do batman e combinei os treinos de patinação de 2005. sentada no balanço do parque, discuti os passeios de natal, se vamos às cachoeiras de brotas ou de dourado, ou pras duas.
tem o projeto "upgrade da bicicleta"(que já rolou!!). o "canteiro de ervas". o "correção postural". o "Saia Daqui" (as aulas começam em fevereiro, está marcado). o "presente da amiga", o "fotos", o "Porto Alegre", a lista de livros pra comprar e o almoço de frango de televisão. ah, tem também o projeto babuchka, que vai ganhar um post à parte, já já.
pois é. tem angústia, sim, mas muitas possibilidades de contorná-la. e uma grande novidade: o problema que mais me angustiou quase todos os dias dos últimos, sei lá, 10 meses, foi solucionado com uma longa reunião com o chefe e um mega, hiper, ultra, mais que merecido, aumento salarial. reconhecida por seu trabalho, valorizada, sentindo que finalmente se fez justiça, lidimes sorri e olha pro futuro com o coração mais leve.
sem parar, desde ontem à noite, dos caramelos ao café da manhã de ontem ao café da manhã de hoje aos chás de camomila e litros de pepsi light, passando pelas emoções dos últimos dois meses, pelas palavras do Naipaul que fizeram tanto sentido, pelos 27 anos e quase 10 meses, pela verdade que é a luta diária e incessante para não fugir.
vomitei tanto que perdi a forma, virei um quase-Barbapapa.
"Ira, transfoma-te em mim em perdão, já que és o sofrimento de não amar".
(Clarice Lispector)
nos restos de caramelo que ficaram na panela, só pra comemorar o término do ÚLTIMO TRABALHO ACADÊMICO DO ANO.
que, modéstia à parte, ficou MUITO BOM.
a partir de agora, tenho quatro meses de FÉRIAS.
TCHAUZINHO.
do ti e roubei essas fotos de um passeio nosso ao ponto chic. era finzinho de junho, domingo e eu estava apaixonada- reparem o brilho dos meus olhos. e me divertindo muito com o ti, que no blog dele escreveu que ele estava chato porque ficou criticando as obras de arte alheias. ah, ti, eu me lembro que a gente se divertiu bastante com aquele bordado que virou o piso de uma biblioteca, lembra?

agora, o que eu não lembro é de ter tirado essa foto desfocada assim. tem certeza que fui eu?

ah, e não foi nesse dia que a gente se perdeu no ipiranga não. aquele passeio a gente fez num sábado bem de noite.

no dia do centro cultural, eu te contei da pastilha verde que eu roubei ali quando eu tinha uns sete anos de idade. e a gente ficou olhando as pessoas estudando na biblioteca, todas tão concentradas. e depois a gente foi comer no ponto chic e andou um pouco pela cincinato braga. acho que foi isso.
estava o Ti, quando me deu a maior força pra eu conseguir não voltar pro trabalho depois da terapia. é que é sempre assim, eu saio de lá com alguma revelação importante que me dá vontade de correr pelo viaduto, ou rir muito, sozinha, no meio do parque do Trianon, ou simplesmente entrar no carro e chorar um pouco. mas eu tenho que guardar tudo isso pra mim, sair correndo, dar um pulo na La Plaza em busca de um sanduíche que nem existe mais (e eu só me lembro disso quando olho pro cardápio: o sanduíche dos tempos de rua Costa Junior e etc não consta mais do menu, por mais que eu ainda sinta o gosto dele), engolir então qualquer coisa, entrar na firrrma com cara de pessoa normal, no máximo tomar uma água e logo sentar na minha cadeirinha verde e fingir que está tudo sob controle. de fato, se eu pudesse não voltar pra lá, se eu pudesse ficar um pouco na laje, ou dormir, ou sentar e desenhar tudo o que eu vejo, seria tão melhor. mas não, Ti, eu concordo com você mas não dá, tem que ser assim agora, tenho que voltar e é duro mesmo.
hoje foi terrível, porque pela primeira vez eu encerrei a sessão antes do tempo, eu disse que estava bom quando na verdade estava tudo um caos e eu sentia que tinha levado um soco bem ali na boca do estômago, um soco que eu mesma tinha dado, estava furiosa e me recusando a chorar sentadinha naquele sofá que já tem uma caixa de Kleenex pra essas horas, então eu disse tchau e fiz um humpf quando ela sugeriu que eu voltasse mesmo a cozinhar e falou de possibilidades como se elas fossem mesmo possibilidades, porque pra ela é tudo tão fácil, e isso me dá tanta raiva, como é que ela vê tanta luz e eu nenhuma, como é que pra ela tudo pode se pra mim é sempre não. então eu saí de lá com esse incômodo fingindo que era só fome, engoli uma empanada de espinafre e até tentei caminhar uns 10 minutos na vila, mas eu estava com tanta raiva de tudo que fiquei xingando mentalmente todo pedestre que cruzava o meu caminho, voltei pra firrma e fiquei "normal", até que deu sete horas e saí correndo, me lavei toda, me alimentei direito, me troquei, me perfumei e me preparei pra terminar o último trabalho acadêmico, cheia de livros e textos embaixo dos braços. mas quando eu cheguei aqui, tudo, simplesmente tudo, desandou, antes mesmo que eu ligasse esse computador e começasse a trabalhar. a dor veio a galope, deu vontade de gritar, eu queria mesmo só chorar baixinho, mas a verdade é que não choro mais, faz muito tempo, porque toda vez que dói eu lembro da vida a me chamar, mas desta vez não tinha chamado nenhum, não tinha pra onde desviar o pensamento, não tinha música que me distraísse, não tinha nada, a dor estava aqui e a interrogação e a vontade de não ser mais assim e eu querendo fechar os olhos por um minuto e que nesse minuto tudo mudasse ou pelo menos as respostas pousassem nesse quarto, então é isso, eu não tive tempo antes, então preciso de alguns minutos agora, é isso, eu não vou chorar.
limite é assim uma coisa que não deveria existir, porque sempre atrapalha na hora de desfrutar os prazeres da vida. ainda mais pra pessoas como eu, que têm a maior dificuldade em lidar com limites, linhas, fronteiras, onde acaba o meu e começa o do outro, onde eu preciso sinalizar, onde eu abro a porta, onde espero que me abram, etc. o que acontece, na maioria das vezes, é que nem consigo "praticar e melhorar minha relação com os limites" porque eu me atrapalho toda, sempre. então, pra não sofrer (já imaginando que o sofrimento virá, já imaginando que eu não vou dar conta sei lá do que) é que eu acabo sempre colocando um limite que o outro deveria colocar, sem nem perguntar, e breco tudo, e tropeço, e me enrosco, e não saio do lugar... e no final das contas fico toda tristinha. e ainda ouso creditar a tristeza ao fato de ter almoçado só uma barra de cereal, de ter sede, de ser lua cheia ou qualquer outra desculpinha que, como diz a Paula, é puro aplique- não cola.
eu sou mesmo terrível.
ou seja, estou chateada, um pouco comigo mesma também. e não fechei nenhuma porta, não.
é muito bom: tem abacate batido com leite, Pijama Salvador, todos os cobertores que eu quiser, água à vontade, descarga da privada funcionando a pleno vapor, gatos ronronantes e, o que é melhor: não tem a Zazá arrastando uma garrafa plástica pelos paralelepípedos da vila às sete da manhã.
ah, sim: tem Pio e Mio. mas não vou precisar, não. eu estou muito bem.
vai rolar
não sei o que, nem onde, nem como, nem quando, nem nada.
mas que eu acredito, ah, eu acredito, sim senhor.
(eu adoro essas sensações. de que tudo pode. me lembro de quando a gente tinha acabado de mudar pra casinha da vila, eu estava super triste, o coração em frangalhos, sem vontade de levantar da cama, exausta por outros motivos...aí fui viajar pra Serrinha, a trabalho, e voltei pra casa num domingo à tarde meio ensolarado. me lembro de ter parado no meio da sala e sentido que sim, eu seria muito feliz ali. se fui, se estou sendo, se serei, não importa. gostoso foi ter sentido. ponto.)
essa minha oscilação de humor e etc. ela está muito, mas muito relacionada a três fatores:
- a oscilação da minha conta bancária, que tende ao negativo após o quarto ou quinto dia útil do mês;
- falta de férias: faz 16 meses que trabalho sem parar;
-meus hormônios. sim, aqui dentro está tudo uma grande casa da mãe joana.
Aliás, eu sou uma Grande Casa da Mãe Joana Ambulante.
por que o conforto é tão fugaz, e os sonhos de cozinhas quentes e fumegantes são tão breves
por que as fibras não agem
por que não adianta, toda vez que eu abro meus olhos, querer saber aonde estão os outros
por que os fios sumiram e o computador não liga sem eles
por que meu salário é tão baixo e pessoas idiotas ganham muito mais
por que não dá pra descer do ônibus e entrar em outro
tanto espirro.
Escrevo pra contar que, seguindo as suas recomendações, eu me cuidei direitinho. Viajei de pneus novos, dirigi com prudência, me diverti e descansei bastante. Provei um novo tipo de caipirinha que eu acho que você ia gostar, e fiz um bolo que não te agradaria, porque eu sei que você gosta de tudo meio queimadinho, e o meu saiu mais pro cru.
Me joguei na piscina quando achei que eu devia, me embriaguei na medida, li um pouco e dei risadas sinceras, sem nenhuma dor escondida.
No meio disso tudo, me lembrei de como fiquei feliz com seu bilhete de sábado de manhã. Você prometeu me ajudar e, como sempre, cumpriu. Eu pude descansar e acordei tranqüila. Me senti amparada- e você, que tem acompanhado vários momentos meus de desespero quase irreversível, sabe como isso é importante pra mim. Acho que é por isso que você sempre me oferece chocolate pra TPM, vinho pros dias chués, segura na minha mão toda vez que eu grito (isso, desde quando eu não queria que cortassem minhas unhas), que me ensina que os homens de hoje estão fragilizados e confusos e acerta sempre nos calendários.
Panos, tenho o maior orgulho de ser ervilhinha, mesmo que isso signifique ser levemente ranzinza, excessivamente introspectiva, mastigar os alimentos menos vezes do que recomendam os médicos, ter dedos de salsicha e se proteger das agruras do mundo travestindo a bondade em braveza. Saiba que eu guardei o seu bilhete naquele diário enorme que eu carrego pra todos os cantos, pra poder ler as suas palavras toda vez que o peito apertar um pouco.
Obrigada por tudo (e isso inclui o bolinho de chocolate que você me deu na madrugada de sexta pra sábado). Um smac pra você também.
Lila
brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz !
Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco?
de tu, meu desejo
estou com saudade do beijo e do mel
do teu olhar carinhoso
do teu abraço gostoso
de passear no teu céu
e as folhinhas balançando ali fora só me dão vontade de deitar na rede e não ser mais eu.
e fico me perguntando coisas difícieis, do tipo porque vim, como vim e pra onde vou, o que sou e porque sou.
quem é lidimes?
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melhor mesmo seria vestir o Pijama Salvador e embarcar pra ilha Porchat, com um sanduíche de requeijão e outro de geléia de morango, como sempre foi.
o que é bem plausível depois da enxurrada que enfrentei esta tarde e da produção de quatro páginas de texto em menos de duas horas.
febre e espirros não me preocupam muito. mas estou sentindo a garganta ruim, o que pode significar dias e dias de cama, como sempre foi, desde quando eu era só a lila.
ai tia...eu queria viajar no feriado. fazer brigadeiro e torta de abobrinha com queijo, ver o rio turvo, pisar descalça na grama, rir de palhaçadas...tomara que eu fique boa até domingo, dia de embarcar levando comigo tupperwares cheios de alimentos e o arco-íris e o pote de ouro, que eu já prometi pra todo mundo.
e NÃO é hora de ficar triste porque as saias floridas foram aposentadas e os olhos cansaram e é isso mesmo, de novo.
vai, lidimes, concentra e escreve, pára de examinar a pinta nova, de descascar a pele da coxa direita, trocar o anel de dedos e transcrever as músicas que o Henri Salvador canta baixinho (ta robe à fleurs sous la pluie de novembre...).
e nem pense em contar os pingos da chuva.
(ainda tenho cinco páginas pra rechear. como dizia o Tim Maia, a noite vai ser longa. e estou com saudades da minha cama e do meu travesseiro, que deixei lá em casa)
me dividir em cinco pra dar conta de produzir dois trabalhos acadêmicos relativamente decentes, acompanhar "a imprensa" no riviera amanhã, fechar duas publicações, consertar o telefone celular, pagar contas, imprimir recibos, estar inteira pra palestra de amanhã à noite, jantar direito, dormir gostoso e não ficar nem um pouco aflita nem perder o bom humor com essa situação.
será se dá?
(Lidimes ouve, mentalmente, o ir e vir das ondas do mar da ilha)
e virei criança medrosa. a Velha Verde vem chegando, montada num de seus corcéis negros (o cavalo, não o carro), minha mão gelou e sinto que tudo, tudo mesmo, vai dar errado, hoje e forever.
pânico. como se eu nunca tivesse feito nada dessas coisas banais que eu tenho que fazer: assessoria de imprensa, trabalho acadêmico, pagar conta, achar duas meias pra calçar nos meus pés, etc. chá quente resolve? e Pijama Salvador? e sonho? e se eu sonhar (como na noite passada) que eu moro na ilha Porchat, tudo fica mais fácil?
hoje é terça-feira, e como toda terça o dia é insuportavelmente cheio e corrido, eu não almocei e só agora, quase 11 da noite, comi umas fatias de rosbife com queijo derretido, me bateu uma tristeza assim enorme, de falta- de energia e outras coisinhas mais. e eu tenho que tirar uma força nem sei de onde pra escrever pro Enjoado (torcendo muuuito pra que ele me responda que sim, que o jornal vai dar a matéria), pra Histriônica e ainda pensar no tal trabalho de direitos humanos e etc. acho que essa última parte fica pra amanhã, como sempre. sim, vai ser melhor. quero cama quentinha, logo mais, mesmo que seja desse jeito de agora.
eu vou começar a escrever o que realmente importa: as histórias da Velha Verde, da Pequena Garota e todo o resto. dos fios de prata, dos esquilos e de todas as bocas costuradas. dos jardins cheios de muguets (me desculpem, eu não sei o nome dessa flor em português) e das estradas tão cheias de curvas e dos barquinhos feitos de bambu e quem sabe dos tamancos, se os pés não estiverem descalços.
nas velharias e achei tanta coisa gostosa...fotos de garotas bronzeadas numa doceira, poemas simpáticos, fofocas, fofocas......saudades de todos os queridos e queridas, hoje.
dia cor de rosa e azul calcinha, é isso.
ah, e o mais importante: hoje minha mãe comemora 60 anos, vai ter bolo daqui a pouco. ueba!
"vendo, troco ou dôo cabeça por vezes pesada, outras avoada, articulada pra assuntos de umbigo e absolutamente preguiçosa pros assuntos da razão, que impede sua portadora de dormir em nome de negociações com ela mesma, que deseja e depois esquece, que sonha e relembra até doer, que vigia, engana e pune, que tem lampejos de bom humor e sarcasmo aplaudidos pelos amigos da portadora, que pensa demais quando devia sentir, que só funciona quando está distraída, que prega peças, constrói armadilhas e saltita muito.
motivo do negócio: a portadora do referido objeto (que é quase um ser com vida própria) cansou de acordar de duas em duas horas para lhe dar atenção, se olhar no espelho e ver ora uma pessoa sorumbática, ora alguém radiante, dentre outros. a portadora do referido objeto afirma ainda estar exausta e disposta até mesmo a ficar sem cabeça, como uma tal Mula, se isso lhe trouxer um pouco de paz no coração, um estômago menos ácido e uma sobrevivência menos complicada.
acompanham a referida cabeça milhares de fios de cabelos macios porém rebeldes, duas orelhas com furos à prova do tempo, um nariz que deu pra ter rinite, uma boca que não se entende com a cabeça (fala quando não deve e não fala quando realmente quer), dentes bem tratados e um par de olhos grandes e astigmáticos".