Ontem foi um dia hors concours. Tudo começou com eu tendo que ir ao Bangsar Shopping Center buscar uns recortes chineses que havia encomendado, e cujo artista voltava para a China no sábado de manhã. Ir de casa até o BSC não é complicado; são uns 25 minutos em carro e, chegando cedo, sem grandes problemas para estacionar. MAS na noite anterior havíamos ficado sem bateria, o que significava ir de táxi - tampouco um grande problema. Desci e em cinco minutinhos estava dentro do táxi de um senhor filipino muito simpático e com um inglês maravilhoso (coisa que se agradece quando há 30 minutos de caminho pela frente, e muita curiosidade deles em relação aos gringos que aqui habitam).
Cheguei por volta das 11.15, peguei meus recortes e fui dar um rolê no shopping, que até ontem mal conhecia. Maravilha, entrei na loja da Bookbinders, uma empresa sueca que faz caderninhos, álbuns de fotos e afins, tudo muito colorido, mas simples (e caaaaro). Entrei numa loja de velas e luminárias, em outra de abotoaduras. 13.00, hora de comer: de duas, uma - ou eu descia até o Bangsar Village>(outro shopping, ao redor do qual tem várias ruas com lojinhas e restaurantes bacanas), que tem um restoche orgânico muito bom, ou pegava um táxi e ia para casa - optei pela segunda opção e fui para o ponto.
No ponto, tive a impressão de que ia demorar para vir algum táxi, e resolvi ir andando e olhando se vinha táxi. Primeira surpresa: avenida dupla, eu tinha que descer - portanto a mão de descida estava à esquerda - e não havia calçada daquele lado, só do lado direito. Mudou de lado e começo a descer, percebendo pouco a pouco que as minhas costas estavam doendo bastante e que o sol da uma estava infernal.
40 minutos depois, já em frente ao Bangsar Village Cipolla, um restaurante italiano com buffet de antepastos, e me refaço com muita berinjela, limonada e saladinha. E volto a procurar um táxi - e a andar no sol.
Foram mais 30 minutos andando (deveria dizer rastejando) até conseguir um táxi. A estas alturas, já tinha perdido a compostura, entre a dor e o desespero de não ter como ir embora dali. Decidi chegar em casa, trocar de roupa e, com o mesmo táxi, ir ao hospital, ainda que chegasse 30 minutos antes.
A equação do terror é assim: sexta-feira, hora de rezar (da uma às duas) para os taxistas muçulmanos, véspera de ano-novo chinês para os taxistas chineses. E calor. Como táxi aqui é muito barato, até as pessoas locais usam bastante, já que onde não há metrô de superfície, não há também ônibus decente. (uhn? não deveria ser ao contrário??). Enfim, cheguei descabelada ao hospital, peguei um iced latte e subi para a fisio.
Parte dois do dia bizarro: no elevador, um chinesinho que desceu no terceiro andar, e um africano gigante que ia ao quarto, como eu. Assim que fechou a porta no terceiro, o africano inicia conversa:
- "How're u doing?"
- "Fine...I mean, if I were not in such a pain, I wouldn't be here in rehab!"
-"Do you use drugs?"
- "...No..!"
E a porta do elevador se abre, ele vai para um lado e eu, atordoada, para o outro. Como ele ousou me perguntar, com a pança que levo, se eu uso drogas? Como ele ousou aproveitar a brecha para me vender algo??
Chego no balcão, preencho minha ficha, ainda indignada, e logo depois ele aparece para perguntar algo à atendente. Finjo que não vejo e olho para o meu livro. E começo a pensar que, muito provavelmente para ele, ir à rehabilitation é sinônimo de drug rehabilitation, daí a pergunta que tanto me chocou. Nada mais. Para mim estava tão claro que, se ele ia ao quarto andar - o andar de reabilitação, incluindo fisioterapias de todos os tipos - ele deveria saber que rehab não é só limpeza orgânica. Na dúvida e na falta de oportunidade de ter perguntado o porquê da pergunta dele, prefiro pensar que foi isto, e não a primeira reação que tive...