Há muito tempo que não escrevo sobre arquitetura, ainda que seja um objeto de estudo que nunca saiu do meu coco. A verdade é que nunca consegui entender como algumas pessoas podiam não enxergar e sentir a má arquitetura, e mais, deixar-se levar por supostos conceitos de desenho. Diáfano, zen e outros adjetivos que, efetivamente, raramente constróem significação. A casa em que moramos é um belo exemplo deste disparate.
Quando viemos vê-la pela primeira vez, as pessoas que estavam conosco faziam elogios ao fato de ser tudo novo, aos eletrodomésticos serem de marca (Electrolux) ou ter uma piscina. Minha primeira percepção nos 7min1/2 que passamos nela, foi de que era absurdo terem colocado aparelhos de ar-condicionado tão grandes e em lugares tão visíveis, ou terem mudado a "madeira" que usavam entre batentes, carpete de madeira e escada. Ainda, que a escada era tão irregular - não no que diz respeito à lei do passo humano, mas às diferentes inclinações em cada um dos degraus, e das arestas não aparadas em cada um deles.
Já estamos vivendo aqui há alguns meses. E a cada sentada mais relaxada e desinteressada em algum canto da casa, ponho-me a perguntar como alguém pôde ter pensado em algumas coisas - estão longe de serem soluções! - que temos aqui. É um condomínio de 18 sobrados, que na internet se vende da seguinte maneira:
Albakri Court , a luxury 3 Storey Townhouse , Gated Development ensonced in the verdant expatriate enclave of Ampang Hilir and Uthant area (o condomínio em si tem arbustos em grandes vasos, bordeando o muro divisório), comprises only 18 units of elegants townhouses complete with facilities ( swimming pool, children`s pool , gym (não terminada) , children playroom (não funciona) and 24 hours security .
Each townhouse come with 4 bedrooms and 1 maid`s room (tão grande que dá para colocar a tábua de passar, o aspirador e uma estante), all thoughtfully built in more than 3000sf of living space . Each townhouse is designed to give you the uncluttered feel of a large (e magnificamente mal distribuída; no refeitório não caberia uma mesa para sentar todos os comensais que vivessem nos 4 quartos) but cozy home affording the much-needed privacy to each living area (principalmente a cozinha, que tem janelas em toda extensão, dando para o caminho de carros - tão íntimo que os americanos ao lado cobriram com papelão, outros botaram cortina).
To complement the manned-security, each home has its own internal alarm system (que não funciona e que há meses disseram que viriam arrumar) which is wired to the cental guard house.
Parêntesis à parte, voltemos à casa em si; comecemos pelo banheiro da "master bedroom": duas cubas, um box grande e desproporcional à pressão da água e ao diâmetro do chuveiro, bidê e privada - voilà um rascunho de distribuição:

Pois bem. Entramos e nos encontramos com o espelhão e as cubas; X1 é a localização da argola-toalheiro de mãos, X2 a do porta-sabonete, X3 da barra para toalhas de banho e, finalmente, X4 é a localização da única dicróica do espelho (sim, descentralizada). Ah, esqueci um gancho para toalhas atrás da porta. Uma análise rápida: quando você vai ao banheiro de um shopping, normalmente colocam - quando existe somente uma saboneteira - o sabão próximo à parede mais longe da porta, para que a pessoa ensaboe a mão, passe a uma das torneiras e, perto da porta, um secador ou toalheiro. E rua. Uma linha de lavagem de mão rápida e indolor. Agora, em uma casa, se você opta por colocar duas cubas, é porque imagina que o casal que vá usar utilize o banheiro junto - o que é o nosso caso, e agradecemos a ducha grande. Então eu, da minha cuba à direita, passo o braço diante do JC, esperando que ele não esteja de bom humor e me cuspa pasta de dente ou me mora, para pegar o sabonete. Ele, por sua vez, passa o braço pela minha frente para pegar a toalhinha de mão ou, mais frequente, seca diretamente na toalha de banho que estiver no toalheiro, de modo que passe por trás de mim. Parece besteira, mas 3x por dia, são cenas dignas de Mr. Bean.
Aí você vai para o banho, e tem dois toalheiros - os dois longe do box, de modo que não temos um, mas DOIS tapetes de banheiro: o primeiro para os pingos d`água gordos, e o segundo para realmente pisar enquanto nos enxugamos. A saída é colocar a toalha, antes de entrar no chuveiro, sobre a lateral de vidro - não fosse um box de qualidade discutível, com acabamento do alumínio não lixado e responsável por ter puxado alguns fios de algumas toalhas.
Côté privada: aqui eles usam privada turca, e nos lugares mais simples deixam uma mini-mangueira conectada a uma torneira, além de um baldinho de mão cuja utilidade ainda não entendi; em lugares mais "chiques" (sim, mesmo neles há este sistema) há duchas higiênicas na parede. Então...por que colocar um bidê, que tanto rima com demodê? Em casa ele serve para o gato deitar enquando estamos no banheiro, ou como apoio para cortar unha dos pés.
Meu resumo da ópera, aqui na análise de um dos cômodos: não dá para querer fazer algo efetivamente bom quando não se tem a mínima idéia. E mais: não dá para querer oferecer um produto a uma determinada clientela, quando não se tem a mais mínima idéia de seus hábitos de vida. Pelo preço que pagamos, não é uma casa para malaios, e assim provam as múltiplas nacionalidades de quem mora aqui. Este banheiro é a coisa mais ínfima de todos os escorregões que cometeram aqui, mas bem descreve a maneira de fazer as coisas por aqui quando não há chineses envolvidos - que aí a coisa é bem diferente. Mas isto já vai ser outro post, noutro momento. Hora de fechar as janelas para os mosquitos não entrarem e ligar o ar-condicionado ;(